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Desapego e autenticidade: chaves das nossas relações pastorais

Vejo a folha em branco e uma ideia: desapego... e a minha mente colapsa... Que direi sobre este tema?

Como falar de desapego, quando o apego é algo tão importante para a sobrevivência, vem incorporado no nosso Ser de forma instintiva e é uma das maiores causas do nosso bem-estar/sofrimento?

O APEGO, por definição, é a forma de nos relacionarmos e criarmos vínculos que adquirimos na nossa primeira infância (ainda desde o ventre materno) e que determina a nossa maneira de nos relacionarmos posteriormente na vida, tanto connosco próprios, como com os outros e com o mundo. Numa tentativa de compreender a ideia que me é apresentada, opto por explicar de outra forma que espero seja esclarecedora e útil.

Limpar o ruído para vincular-nos

Como agentes de pastoral, estamos em relação e, por isso, temos constantemente a oportunidade de gerar vínculo, o que facilitará ou não uma boa comunicação, um processo de confiança e, em última análise, a transmissão da mensagem e/ou a relação de ajuda.

A mochila que levamos

A nossa forma de vinculação é determinada pela mochila que carregamos, pelas nossas experiências de apego e, assim, relacionamo-nos consciente ou inconscientemente, é como o programa que trazemos dentro de nós e que, por vezes, não actualizámos.

Carl Rogers definia três atitudes para a relação terapêutica, que bem podem servir-nos na nossa tarefa pastoral: a congruência, a aceitação incondicional e a empatia. Poderíamos dizer muitas coisas sobre estas atitudes, mas interessa-me sobretudo enfatizar a Congruência, ou seja, a autenticidade, sermos realmente nós próprios.

A maioria de nós considera-se autêntica, no entanto, todos carregamos uma mochila de experiências que, como referi anteriormente, configuraram o programa a partir do qual nos vinculamos e agimos. Talvez não tenhamos tido a oportunidade de nos tornarmos CONSCIENTES de se esta é a melhor versão de nós próprios ou se essa mochila foi sendo preenchida com ruído. Um 'ruído' que, por ser habitual, normalizámos e até associámos à nossa forma de ser.

Introduzo aqui um termo que, no livro O Círculo de Segurança, é denominado de 'a nossa música de tubarões', ou seja, essa música-ruído de que falava no parágrafo anterior. É o que soa por detrás da nossa perceção da realidade... ou seja, imagina por um momento que estás a contemplar uma praia com música relaxante, o que te evoca? Agora, essa mesma praia é acompanhada pela música do filme 'Tubarão', o que evoca? A praia é a mesma, mas o pano de fundo, o ruído-música que a acompanha, não. Estas são as nossas experiências, que moldaram o olhar com que vemos o mundo e que, por vezes, não nos permitem ver com objetividade.

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Uma versão mais limpa de nós mesmos

Neste contexto, situo eu ao falar de congruência, ou seja, nas nossas relações e ações, se quisermos ser realmente congruentes, devemos detetar que música soa no nosso estado emocional e descobrir se o que vivo provém do meu Eu ou de tudo o que foi sendo acumulado nas diversas experiências da vida. Da mesma forma, nas relações, e como agentes de pastoral, saber o que sinto com e perante o outro, o que é meu e o que é do outro, é muito importante, porque ajuda a ver com maior clareza a imagem, 'a praia', e permitirá oferecer uma versão de nós mais limpa e não contaminada.

por Marcelina Betancort, rmi.

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